Este é o 5º da série de 8 artigos sobre Gestão de Microempresas.
Se tem uma coisa que eu vejo com muita frequência no pequeno e médio negócio é a mistura do dinheiro da empresa com o dinheiro do dono. E eu não falo isso para julgar ninguém. Eu falo porque, na prática, isso é um dos principais motivos de caixa apertado, imposto surpreendendo e sensação de que a empresa trabalha muito e nunca sobra.
Separar o dinheiro da empresa do seu bolso não é “frescura de gestor”. É sobrevivência. E dá para fazer isso sem culpa, sem burocracia e sem você virar refém de planilha.
Primeiro, vamos tirar a culpa da mesa
Muita gente mistura por um motivo simples: a empresa ainda não tem uma rotina financeira minimamente organizada. Aí o dono paga uma conta pessoal no cartão da PJ “só esse mês”, faz uma retirada maior “só hoje” e, quando percebe, virou padrão.
O problema não é a retirada. O problema é a falta de regra.
E regra não é rigidez. Regra é previsibilidade. Para você e para a empresa.
Por que essa mistura destrói sua gestão sem você perceber
Quando você mistura, você perde três coisas que são essenciais:
- Você perde a leitura real do caixa da empresa
O caixa vira um “o que sobrou depois que eu resolvi minha vida”. Assim não existe planejamento. - Você perde o controle do lucro
Se o dono vai retirando conforme a necessidade, fica impossível saber se a empresa dá lucro de verdade ou só está girando. - Você cria risco fiscal e contábil
Misturar movimentação pessoal com PJ bagunça conciliação, classificação de despesas e pode gerar interpretações ruins em fiscalização e em análises bancárias.
Se você quer crescer, financiar, investir, contratar e tomar decisão com calma, essa separação é básica.
Separar o dinheiro da empresa
do dinheiro pessoal não é frescura,
é sobrevivência!
A forma certa de pensar: empresa paga dono do mesmo jeito que paga qualquer custo
O dono não é “um custo qualquer”, mas o princípio é o mesmo: precisa ser previsível.
Existem duas formas principais de o dono receber dinheiro da empresa:
- Pró-labore: remuneração pela função que você exerce na empresa.
- Distribuição de lucros: retirada do lucro, com regras e apuração adequada.
O que não dá é tratar o caixa da empresa como extensão do seu bolso e chamar isso de “flexibilidade”.

Como separar na prática, sem complicar
Vou te passar um passo a passo simples, que funciona na vida real.
1) Tenha duas contas e respeite isso
Parece básico, mas não é negociável:
- conta da empresa para movimentação da empresa
- conta pessoal para sua vida pessoal
Se hoje está tudo misturado, não tente “arrumar o passado inteiro”. Comece a separar a partir de agora e organize o que for possível sem travar a operação.
2) Defina um “salário do dono” com data fixa
Escolha um valor e uma data. Exemplo: todo dia 5.
No começo, esse valor pode ser conservador. O objetivo não é tirar o máximo. É tirar o que dá para tirar sem matar a empresa.
Se você não sabe quanto definir, um bom começo é:
- mapear seu custo de vida pessoal
- definir uma retirada fixa que caiba no caixa
- deixar o excedente para lucro ou reserva
O que te dá paz é previsibilidade. Não é retirada grande.
3) Faça uma regra para retiradas extras
Retirada extra não é pecado. Pecado é retirada extra sem critério.
Crie uma regra simples, por exemplo:
- retirada extra só no fechamento do mês
- retirada extra só se o caixa projetado dos próximos 30 dias continuar positivo
- retirada extra só se impostos e folha estiverem provisionados
Essa regra muda seu jogo porque você para de tomar decisão no impulso.
4) Separe “o que é da empresa” antes de pensar em sobras
Antes de você pensar em distribuição, a empresa precisa ter garantido:
- impostos do período
- folha e encargos, se tiver
- fornecedores e despesas fixas
- capital de giro mínimo
- uma reserva, nem que pequena
Empresa sem reserva vive na corda bamba. E quem paga essa conta é o dono, com ansiedade e decisões ruins.
5) Formalize: o que está combinado precisa estar registrado
Aqui entra contabilidade e gestão conversando de verdade.
Não é só “transferi e pronto”. Retiradas precisam estar bem tratadas para não virar bagunça contábil e fiscal. Dependendo do regime e da realidade da empresa, a forma correta de registrar e planejar isso muda.
É exatamente nesse ponto que muita empresa se enrola sozinha e começa a tomar susto com imposto, distribuição malfeita ou falta de documentação.
“Mas eu sou o dono. Por que não posso pegar quando eu quiser?”
Pode. Só entenda o custo.
Quando você pega a qualquer hora, a empresa perde previsibilidade e você perde gestão. É como dirigir sem painel. Você até anda, mas não sabe a velocidade, não sabe o combustível e só percebe o problema quando já parou.
Se a empresa é pequena, o impacto é imediato. Se ela está crescendo, o impacto é dobrado, porque qualquer desorganização vira um rombo maior.
Separar não é sobre “não tocar no dinheiro”. É sobre tocar do jeito certo.
Um teste rápido para você se responder com honestidade
Se você não consegue responder agora, de cabeça:
- quanto a empresa vai pagar de imposto no próximo mês?
- o quanto vence de contas nos próximos 15 dias?
- quanto você vai retirar no mês e em que data?
Então você não tem separação. Você tem improviso. E improviso costuma ser caro.
Na CO&FIN Contabilidade, nós fazemos esse trabalho com foco no que interessa para o empresário: clareza, rotina simples e tomada de decisão.
A gente organiza a estrutura para:
- definir pró-labore e regras de distribuição com segurança;
- tratar corretamente as retiradas na contabilidade;
- montar um fluxo de caixa que te permita saber o quanto dá para tirar sem sufocar a operação;
- alinhar o financeiro com o tributário para você parar de ser surpreendido;
Se preferir resolver isso com acompanhamento, me chama e eu faço com você um diagnóstico rápido da sua situação.
Outros artigos da série Gestão de Microempresas:
Pense como Empresário, não como Autônomo (artigo 01 de 08)
Por que o caixa é o coração do seu negócio, e como cuidar dele (artigo 03 de 08)
Gestão não é burocracia: é o GPS do seu negócio (artigo 04 de 08)
Perguntas Frequentes sobre dinheiro da empresa e dinheiro pessoal
Por que não posso misturar as contas pessoais com as da empresa?
Misturar as finanças fere o Princípio da Entidade, dificultando a visão real da lucratividade do negócio. Além de mascarar gastos excessivos, essa prática pode gerar problemas com o fisco (Receita Federal) e dificultar a obtenção de crédito bancário, já que a saúde financeira da empresa se torna pouco transparente.
O que acontece se eu pagar contas pessoais com o dinheiro da empresa?
Legalmente, isso pode ser caracterizado como confusão patrimonial. Caso a empresa sofra um processo judicial, o juiz pode desconsiderar a personalidade jurídica, fazendo com que suas dívidas empresariais atinjam seus bens pessoais (carro, casa, conta poupança). Além disso, você perde o controle sobre o fluxo de caixa.
Como definir o valor do meu Pró-labore?
O Pró-labore deve ser definido com base no valor de mercado para a função que você exerce e na capacidade de pagamento da empresa. Ele funciona como o seu “salário” fixo.
DICA: Não confunda Pró-labore com distribuição de lucros; o primeiro tem incidência de impostos (INSS/IRRF) e o segundo é a partilha do excedente.
Qual a melhor forma de separar as finanças na prática?
O primeiro passo é abrir uma conta bancária PJ. Utilize a conta da empresa exclusivamente para receitas e despesas do negócio. Agende uma transferência mensal (o seu Pró-labore) da conta PJ para a sua conta PF. A partir desse valor fixo, você paga suas contas de casa.
Posso usar o lucro da empresa para gastos pessoais?
Sim, mas isso deve ser feito através da Distribuição de Lucros, e não de forma aleatória no dia a dia. A distribuição deve ocorrer após o fechamento do balanço ou balancete, garantindo que todas as obrigações da empresa foram quitadas e que há reserva de contingência.












